quarta-feira, 4 de junho de 2014

Da crueldade do mundo

O mundo não é uma redoma de vidro, não é um ambiente controlado, não é um jogo onde pomos os bonecos a fazer o que nós queremos... Não podemos evitar viver no mundo, não podemos evitar que os nossos filhos vivam no mundo: que corram, saltem, dancem, caiam, amem, se dececionem, se magoem...
Devemos deixá-los aventurarem-se na vida e darem uns trambolhões de vez em quando. Joelhos esfolados, lágrimas caídas, devemos ensiná-los a levantarem-se novamente e a encararem o mundo de frente. É assim a vida: não importa as vezes que caímos, o que importa é não ficar caído, não ficar parado, não ficar tolhido pelo medo da próxima queda. Parar é morrer, costuma dizer-se. Para mim, o truque é ter um coração de gelatina, daqueles que treme treme mas não quebra, é flexível como as árvores que se inclinam com o vento e que depois voltam à sua forma, é capaz de enfrentar todos os contratempos, de cair e de se esfolar muitas vezes, mas arranja sempre maneira de voltar ao caminho certo.
Não sou mãe, mas é isso que imagino para os meus filhos. Vê-los crescer livres para aprender que joelhos arranhados e lágrimas esquecidas são sinónimo de crescimento e de fortalecimento para a vida.
Mas depois, de vez em quando, leio histórias como a da Carolina e pergunto-me que futuro será este onde os meus filhos vão crescer, quando a maldade e a crueldade do mundo está ao virar de cada esquina. Já não bastam as doenças, as guerras, as mortes injustificadas em nome de um conceito maior... Já não basta a vil obsessão dos homens pelo controlo e pelo poder (sobre a terra, sobre o dinheiro, sobre os outros homens)... Já não basta temermos os ladrões, os delinquentes, os arruaceiros... Como explicar a uma criança que o seu colega de escola lhe possa fazer tanto mal, que os professores e funcionários que a deveriam proteger olham para o lado como se nada fosse? Como explicar que nós, pais, que temos o dever e a obrigação de os proteger de qualquer mal, nem sempre conseguimos fazê-lo e que às vezes as nódoas negras da vida são mais do que simples quedas de bicicleta e algumas são mesmo invisíveis aos olhos?


É com estes pensamentos negros que penso: a que mundo vou trazer os meus filhos?
Mas depois lembro-me deste momento, entre duas personagens fictícias de uma série de televisão:


...e penso que encontrei a resposta para a minha pergunta. Não posso proteger os meus filhos do mundo, da crueldade, da dor... mas posso criar os meus filhos para que não façam parte da maldade que grassa o mundo. Posso educá-los para que sejam melhores do que eu fui e para que eduquem os seus filhos para serem ainda melhores. 
Para podermos criar um mundo melhor.

3 comentários:

  1. estou à espera dos meus sobrinhos, tenho a certeza que serás uma ótima mãe :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um dia. Também espero que sim. Pelo menos vou tentar ser tão boa como a minha foi! :)

      Eliminar
  2. É isso mesmo.

    Excelente texto e pensamento.

    Beijinhos

    ResponderEliminar