No outro dia, o Tiago foi para a cama sem comer. Não foi castigo nem por opção dos pais, não houve birras nem gritos nem choros. Foi por opção dele, por teimosia orgulhosa deste meu filho que ainda não fez dois anos.
Cheguei a casa e o pai já lhe estava a dar o jantar, ou a tentar, já que ele não queria comer nem a sopa nem o prato principal. Estava de burro amarrado, teimosinho como ele só. Meti-me com ele, brinquei, tentando quebrar a tensão e ver se ele se distraía e comia qualquer coisa. O pai falava com firmeza, mas tranquilamente, em voz baixa, num tom amigável. Argumentámos que a papa era boa, que eram batatas fritas (era alho-francês à brás) já que ele gosta tanto - e nós nunca lhe damos. Dei-lhe a opção de escolha "Não precisas de comer as duas coisas, filho, podes comer só a sopa ou só a papa." O pai foi reaquecer a comida que entretanto esfriara.
Nada. Nada resultou. Nem abriu a boca, só abanava a cabeça.
O pai disse-lhe, por fim: "Se não comes o jantar, também não vais brincar, filho. Queres ir já para a cama?"
E não é que o catraio disse que sim? Espanto! Insistimos: "Olha que não há história, nem brinquedos, vais para a cama dormir." Outra vez que sim. "Não preferes comer a papa e ir brincar um bocadinho?" Abano negativo.
E lá foi o pai dar-lhe banho, lavar os dentes e metê-lo na cama com apenas uma garfada de comida na barriga. Dormiu a noitinha toda e no dia seguinte tive de o ir acordar para ir para a escola. Talvez não tivesse fome naquela noite, talvez tivesse apenas sono. Não sei dizer. O que sei é que o piolho, que regra geral é um fala barato, nessa noite não abriu a boca. Disse apenas meia dúzia de palavras quase arrancadas a ferro e a brincadeiras ligeiras para ver se ele largava o amuo. Ninguém se zangou, ninguém gritou, ninguém lhe ralhou, mas ele quando mete algo na cabeça, ui! Com ele, claramente não vale a pena comprar guerras que não posso ganhar! E aqui reside o verdadeiro equilíbrio: ser firme na educação que quero que o meu filho tenha, mas flexível para perceber que, se teimarmos os dois, nenhum de nós vai a lado nenhum e saímos ambos a perder. É uma aprendizagem constante este drama na vida de uma mãe de um puto teimoso como uma mula ;)