O passado que seremos
Inês Botelho (Porto Editora)Romance de iniciação à idade adulta, O Passado Que Seremos dá-nos o(s) retrato(s) de uma geração e dos caminhos onde procura encontrar a "sua" verdade.
Opinião
Sobre a sua obra, a autora diz o seguinte: "Estava pouco interessada num livro amoroso ou delico-doce; queria-os a eles. (...) É o que vos ofereço: a experiência de serem Elisa e Alexandre." E é efetivamente isso que nos é oferecido: uma narrativa a duas vozes, entrar na cabeça de duas pessoas tão diferentes que são quase opostas, mas cujos mundos orbitam em torno um do outro, conhecer-lhes os sonhos, os desejos, as vontades, os erros...
Mas mergulhar dentro da mente e do coração de Elisa e Alexandre implica também entrar num mundo confuso, em que o passado se mistura com o presente, o real com o sonho, os narradores com as restantes personagens. E aqui reside a primeira crítica a este livro: não é uma narrativa clara. O leitor tem de estar atento à mudança de narrador e, principalmente, à mudança de tempos (ora estamos no presente, ora a seguir já estamos no passado, ora depois estamos a fazer conjeturas de um futuro que ainda não existe, sem que nos seja dada qualquer indicação).
Outra coisa que torna a trama de mais difícil compreensão é o registo de diário: Alexandre escreve para Elisa e Elisa escreve para Alexandre, mas depois escreve para a sua mãe e depois para a Lua, noutra ocasião escreve como se fosse o seu pai... Tudo isto baralha o leitor, transforma a história num conjunto de colagens que por vezes não ligam bem. Procurando uma narrativa mais poética, a autora acaba por falhar até na tentativa de se comunicar claramente com o leitor e, apesar de eu gostar bastante do registo diário, quando bem feito, aqui senti que perdeu um pouco o seu propósito.
Gostei da dicotomia entre as duas personagens principais, de ver os mesmos episódios contados de pontos de vista tão diferentes. Por outro lado, na ânsia de nos transmitir sensações e pensamentos, Inês Botelho relega a ação para segundo plano e muitas vezes esses episódios são momentos estranhos, como que imagens soltas em vez de uma história fluida. O mesmo acontece com as personagens secundárias, que ficam presas nessas imagens e não se conseguem construir e evoluir: ainda hoje não sei nada do Vasco, da Mila, do próprio Zé, que supostamente é o melhor amigo do Alexandre, até dos pais dos protagonistas, que surgem pouco, em contexto de diálogos rápidos e que são imediatamente postos de lado pelo turbilhão de pensamentos que vai dentro das cabeças daquelas alminhas.
De um modo geral, não me encantou de todo, mas a Inês Botelho ainda é uma autora jovem e terá muitas oportunidades de amadurecer o seu talento. Talvez o próximo seja melhor.
Mas mergulhar dentro da mente e do coração de Elisa e Alexandre implica também entrar num mundo confuso, em que o passado se mistura com o presente, o real com o sonho, os narradores com as restantes personagens. E aqui reside a primeira crítica a este livro: não é uma narrativa clara. O leitor tem de estar atento à mudança de narrador e, principalmente, à mudança de tempos (ora estamos no presente, ora a seguir já estamos no passado, ora depois estamos a fazer conjeturas de um futuro que ainda não existe, sem que nos seja dada qualquer indicação).
Outra coisa que torna a trama de mais difícil compreensão é o registo de diário: Alexandre escreve para Elisa e Elisa escreve para Alexandre, mas depois escreve para a sua mãe e depois para a Lua, noutra ocasião escreve como se fosse o seu pai... Tudo isto baralha o leitor, transforma a história num conjunto de colagens que por vezes não ligam bem. Procurando uma narrativa mais poética, a autora acaba por falhar até na tentativa de se comunicar claramente com o leitor e, apesar de eu gostar bastante do registo diário, quando bem feito, aqui senti que perdeu um pouco o seu propósito.
Gostei da dicotomia entre as duas personagens principais, de ver os mesmos episódios contados de pontos de vista tão diferentes. Por outro lado, na ânsia de nos transmitir sensações e pensamentos, Inês Botelho relega a ação para segundo plano e muitas vezes esses episódios são momentos estranhos, como que imagens soltas em vez de uma história fluida. O mesmo acontece com as personagens secundárias, que ficam presas nessas imagens e não se conseguem construir e evoluir: ainda hoje não sei nada do Vasco, da Mila, do próprio Zé, que supostamente é o melhor amigo do Alexandre, até dos pais dos protagonistas, que surgem pouco, em contexto de diálogos rápidos e que são imediatamente postos de lado pelo turbilhão de pensamentos que vai dentro das cabeças daquelas alminhas.
De um modo geral, não me encantou de todo, mas a Inês Botelho ainda é uma autora jovem e terá muitas oportunidades de amadurecer o seu talento. Talvez o próximo seja melhor.

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