Nasci e cresci em Lisboa. Aos vinte e quatro anos, mudei-me, saí da minha cidade de sempre para ir viver com o marido, desloquei-me umas dezenas de quilómetros e fui morar no campo. Tenho a serra como pano de fundo ao acordar e aquela languidez de quem não tem pressa quando estendo a vista sobre a paisagem longínqua que vejo a partir da minha janela de um segundo andar.
Viver no campo tem as suas vantagens e as suas desvantagens. Se começarmos por estas últimas, ponho já (e sempre) a acessibilidade em primeiro plano. É impossível viver aqui sem se ter carro próprio - com autocarros de hora a hora (ou de 30 em 30 minutos em hora de ponta) e quase todas as coisas a distâncias consideráveis, é muito complicado ficarmos dependentes dos transportes públicos. Que de públicos só têm o nome, porque os preços dos passes mensais ou dos bilhetes individuais mostram bem que falamos de negócios privados.
Mas fora isso, que para mim foi a mudança mais brusca (em Lisboa, mesmo morando nos Olivais, tinha tantas opções de transporte e tudo e tanto tão perto), confesso que estou rendida a esta vida no campo. Se calhar, precisamente porque morava nos Olivais, o bairro jardim de Lisboa, onde tudo fica próximo, mas não estamos tão no centro que temos trânsito louco ou manifestações ou bares à porta de casa. Ou então porque vim morar para um campo que, embora continue a precisar do carro nem que seja para ir trabalhar ou para ir levar e buscar o miúdo ao colégio, tem praça e cafés e restaurantes aqui mesmo ao lado; tem jardins e parques infantis a quase cada esquina; escolas, um centro de saúde e um Minipreço a que posso ir a pé (e um Continente e um Jumbo e um Lidl todos a menos de dez minutos ao volante); família aqui ao lado; e aquela serra, que já adotei como minha, como paisagem de fundo.
Estou rendida a viver no campo, e ainda assim tão perto da cidade, da minha cidade do coração!
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