quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Palavras dos outros #3

Gosto de ser a amiga com quem se conta. Para mim não há outro modo de se ser amigo. Ou melhor, há. Só que não é o meu. Gosto de ser aquela que está lá para o que der e vier. Nos momentos bons e nos momentos maus. Gosto de cuidar dos meus amigos. De me lembrar das datas importantes (e quando me esqueço fico danada). Gosto de surpreender, de mostrar que os conheço e que sei do que precisam. Gosto que contem comigo e que saibam que podem contar 24 horas por dia porque quando um amigo precisa eu quero estar por perto.
Durante muito tempo, ficava frequentemente magoada quando os meus amigos não tinham para comigo o mesmo tipo de cuidado. Sentia que havia um desequilíbrio na balança da amizade e isso deixava-me triste. Depois percebi que não há balanças na amizade. Não há um deve e um haver; um crédito e um débito. Há formas diferentes de ser. E não posso medir os outros pela minha forma de ser. Não posso medir a amizade que têm por mim tendo como bitola o meu jeito particular de ser amiga. É óbvio que tem de haver uma espécie de "serviços mínimos", que não pode ser sempre o mesmo a estar lá e o contrário nunca acontecer, sob pena de se tornar uma relação unilateral, ou seja, uma não-relação. Mas querer nivelar a amizade pelos meus parâmetros é só estúpido. E frustrante. E intolerante. Somos diferentes, ponto. E eu, no que à amizade diz respeito, gosto muito de ser assim.


Há muito tempo que não meço amizades por bitola nenhuma. Há muito tempo que tenho todo o tipo de amigos, daqueles com quem falo diariamente, àqueles com quem estou sem falar meses mas de quem gosto mesmo a sério e que faço questão de ter presentes nos momentos importantes da minha vida e de estar presente nos momentos deles.
Quando um amigo diz que precisa, eu faço questão de estar lá. De tentar estar lá, porque nem sempre é possível. São aqueles a quem chamo amigos-família. São aqueles cujos filhos são os meus sobrinhos emprestados. E cujas dores e alegrias são um bocadinho minhas. 
Mas também são aqueles que espero que me desculpem quando eu não estou presente, ou não estou nos meus dias. Que me aturem o mau feitio e que continuem a gostar de mim. Há muito tempo que aprendi que as pessoas vão e vêm, que os amigos nem sempre ficam e que a amizade é uma estrada com dois sentidos em que regra geral nos encontramos a meio termo. Mas que é também um espaço para errar, para magoar os amigos e pedir desculpas, para evoluir, para crescer. E os amigos verdadeiros, os que ficam, são aqueles que evoluem connosco, que também erram e perdoam os nossos erros, que se tornam família nesta coisa que é a vida.




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