As birras. Ai, as birras. Supostamente, deviam chegar com os dois anos, mas o meu filho, tão precoce para algumas coisas, decidiu que ao fazer um ano e meio estava mais que na altura de começar a fazer valer a sua vontade. Ou pelo menos tenta, afincadamente, recorrendo com frequência a grandes rompantes de choro, gritos, guinchos, atirar-se para o chão, contorcer-se, dar palmadas nos móveis e no chão, atirar coisas, chorar e gritar mais um pouco... Enfim, fazer birra. Birras pequenas, birras grandes, birras descomunais.
Por norma, até sou muito paciente e sensível aos humores dele. Sei que tem um ano e meio e frustrações que não consegue exprimir de outra forma. Sei que não domina ainda a arte da paciência e a compreensão plena do que lhe digo. Sei que não percebe porque não pode ter o que quer, quando quer, da maneira que quer. E que se enerva com isso.
Às vezes consigo distraí-lo com outra coisa, outras vezes abraço-o, digo-lhe que gosto muito dele, de outras, ainda, tenho de ser firme e fazer-lhe ver que quem manda sou eu e que não é não! Claro que não gosto de o ver chorar, claro que me incomoda profundamente vê-lo tão enervado, mas nem sempre a coisa se resolve com palavras mansas. Há limites que ele tem de aprender que não pode ultrapassar: não pode atirar as coisas ao chão porque sim e não pode bater nas coisas e nas pessoas. Sim, volta e meia lá vem uma palmada na direção dos pais e aí vai-se toda a paciência e compreensão. Não lhe bato de volta, mas a mudança no tom de voz, nas feições, fá-lo perceber que errou. E o Tiago detesta errar, detesta ser repreendido, detesta fazer mal. Até agora, os castigos têm funcionado muito bem - sentamo-lo no chão, sem brinquedos, a pensar no que fez, e ele lá fica, obediente, umas vezes a chorar outras nem por isso. Mas já compreende o conceito, o facto de ser consequência de algo que ele não devia ter feito. Mas os castigos não podem ser solução para as birras, que muitas vezes não são conscientes. Então arranjamos estratégias diferentes para situações diferentes. Não lhe ralho por ele fazer birra, mas por vezes ralho por estar a gritar. Não lhe ralho por estar nervoso, mas ralho por atirar coisas ao chão. Tento falar com ele, repetir muitas vezes a mesma coisa, obrigá-lo a olhar-me nos olhos e a prestar atenção, porque sinto que no meio da birra ele não me ouve. Quando ele para, quando acalma o suficiente para ouvir, explico, explico, explico. E, em algumas vezes, ele compreende. Noutras não, mas caramba, ele também só tem um ano e meio.
O Tiago é teimoso. E impaciente. E mandão. E muitas vezes, nós acedemos às vontades dele. Mas nem sempre. E há birra. Desde que o vou buscar até que o deito, temos umas cinco ou seis birras: porque, no carro, quer sentar-se no lugar do condutor quando saímos da escola e eu não o deixo, digo-lhe que só quando chegarmos a casa; quando chegamos a casa, depois de ele estar no lugar do condutor (não faço promessas que não cumpro!), faz birra porque quer brincar com a chave do carro da mãe e eu não deixo (já fiquei com o carro destrancado uma vez à conta disso); depois porque não quer ir trocar a fralda, depois porque não quer lavar as mãos, depois porque não quer ir jantar, mas afinal a seguir chora porque quer jantar e tem de ser já, durante a refeição não quer a sopa, depois de comer a sopa toda não quer a fruta, depois não quer ir para o banho, a seguir quer que o boneco de peluche tome banho com ele, afinal já não quer sair do banho e abre a água várias vezes, mesmo que já esteja fria, depois de o arranjar e preparar para deitar, afinal não quer dormir quer ir para o chão, depois chora porque não o deixo ir para o chão e quer ir para a cama, mas afinal não quer estar na cama... Enfim, vocês já perceberam o esquema. Se calhar é um bocadinho mais do que cinco ou seis. O que vale é ele vai alternando, hoje faz umas, amanhã outras. Num dia mau, são todas juntas.
Mas depois há os momentos entre as birras. Em que o Tiago é um menino meigo, inteligente, espirituoso, cheio de alegria e de sentido de humor. Doce como só ele. O meu grande grande amor. E são esses momentos que ofuscam todos os outros e que me fazem pensar na maravilha que é ser mãe desta pequena pessoa. A minha pequena pessoa. O meu amor maior.
Mas depois há os momentos entre as birras. Em que o Tiago é um menino meigo, inteligente, espirituoso, cheio de alegria e de sentido de humor. Doce como só ele. O meu grande grande amor. E são esses momentos que ofuscam todos os outros e que me fazem pensar na maravilha que é ser mãe desta pequena pessoa. A minha pequena pessoa. O meu amor maior.

Os bebés de um ano, dois, três... Não ficam a pensar no que fizeram. Pode pedir que ele se sente e acalme, mas não que pense no que fez, porque ele não tem essa capacidade... :)
ResponderEliminarEu sei. Nós não usamos a expressão "Ficar a pensar", usamos mesmo a expressão "castigo". Que dura pouco, como é óbvio porque ele não tem capacidade para permanecer durante muito tempo.
EliminarNo entanto, mais do que a eficácia do castigo, é a criação de hábitos e de noção que as suas ações têm consequências. Por enquanto ele é pequeno demais para perceber certas coisas, mas acredito mesmo que é de pequenino que vamos criando os hábitos. E, desde que ele saiba sempre que os pais o amam (e mesmo de castigo fazemos questão de lhe dizer), é de pequenino que tem de ser dada a educação :)