Hoje fazes 82 anos, mas não sabes. Já não te lembras de contar os dias, confundes as datas e não sabes a quantas andas. Consequência da doença, essa que se pega à memória e a vai corroendo devagarinho, um pedaço de cada vez. Essa maldita que te leva para longe de nós...
Mas hoje não quero falar dela. Não quero falar de coisas tristes e de futuros cinzentos. Quero falar de coisas boas, de memórias douradas que guardo dos tempos em que era miúda e tu me contavas histórias inventadas da Disney para eu comer a sopa toda. As cantigas que me cantavas, sei-as de cor, bem como Aquela Rua, da Amália, que cantarolavas enquanto fazias as lides e que eu aprendi a gostar, numa altura em que não gostava de fado nenhum. Hoje gosto de muitos fados, avó, mas aquele daquela rua tem um sabor especial, ainda que seja triste de fazer chorar as pedras da calçada. As canções da Lua e do Faísca, já as canto ao Tiago, para ele conhecer e um dia trautear aos seus filhos, de geração em geração, transmitindo as tradições familiares.
Hoje quero recordar as histórias que contavas dos teus tempos de garota, das partidas que pregavas aos vizinhos e amigos, das festas de Carnaval em que te mascaravas a rigor e ninguém te reconhecia, das peripécias que vivias com os teus irmãos, tu, uma segunda mãe para todos eles, a quem eles tanto massacravam, naquela certeza que só os irmãos têm de que nunca te chatearias a sério com eles. As muitas noites que passaste a ler todos os livros que o teu pai te arranjava, as muitas viagens que fizeste em solteira e depois de casada. Foste sempre uma mulher à frente do tempo - casaste tarde, tiveste apenas dois filhos, divorciaste-te. Educaste os filhos e as netas com muito amor e carinho e agora dás muitos beijinhos na minha barriga para o Tiago sentir o teu amor por ele. Ele sente, avó. Todos nós sentimos.
São 82 anos repletos de tanta vida, de tantas histórias, de altos e baixos e de risos e lágrimas, algumas das quais ficaram por cair. Guarda-las dentro de ti, sei-o quando te vejo o olhar ausente. Afinal, tens 82 anos de vida dentro de ti e sei que ainda tens força para viver mais uns quantos. O único desejo que peço é que os possas viver o mais plenamente possível, junto daqueles que te amam tanto e de quem és tão querida. Hoje, pela força das circunstâncias, não sabes que é o teu aniversário, não vais apagar as velas do teu bolo e tirar a foto da praxe com as tuas três netas. Mas, tal como o Natal, o teu dia é quando nós quisermos e nós queremos que seja quando voltares para nós, para casa. Fica a promessa: põe-te lá boa, que terás um bolo e muitas velas para soprar quando regressares.
Até lá: parabéns, avozinha! Tu sabes que te adoramos!

que lindo, querida Xaninha :) a tua avó ficará boa e aí irão festejar a sério! vai correr tudo bem * um abraço apertado!
ResponderEliminarPronto, fiquei a chorar... Que saudades da minha avó, e já lá vão quase 18 anos...
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