quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Opinião: A Lança do Deserto, de Peter V. Brett

A Lança do Deserto

Peter V. Brett (1001 Mundos)


Sinopse: O Sol põe-se sobre a Humanidade. A noite pertence agora a demónios vorazes que se materializam com a escuridão e que caçam, sem tréguas, uma população quase extinta, forçada a acobardar-se atrás da segurança de guardas de poder semi-esquecidas. Mas estas guardas apenas servem para manter os demónios à distância e as lendas falam de um Libertador; um general, alguns chamar-lhe-iam profeta, que em tempos uniu a Humanidade e derrotou os demónios. No entanto esses tempos, se alguma vez existiram, pertencem a um passado distante. Os demónios estão de volta e o Libertador é apenas um mito… Ou será que não?

Opinião
O primeiro livro desta saga, O Homem Pintado, trouxe-me uma experiência de leitura extremamente intensa e poderosa. Não esperava menos de A Lança do Deserto e a verdade é que ele não desiludiu. Neste livro, com mais de 700 páginas, vemos um desenvolvimento da narrativa e das personagens e ficamos sedentos por mais, as folhas voam nas nossas mãos, bebemos sofregamente a história que Brett nos conta. No entanto, este desenvolvimento só tem lugar na segunda metade do livro, uma vez que na primeira parte voltamos atrás no tempo para conhecer o passado e a história de Jardir, uma personagem que, apesar de ser apenas secundária, mudou o rumo dos acontecimentos em O Homem Pintado, e ganha uma relevância gigantesca neste segundo volume. Ele é, para o povo de Krasia, O Libertador, aquele que foi escolhido por deus para salvar a humanidade dos demónios. Com esta premissa como base, os krasianos, povo guerreiro e de culturas muito arraigadas, parte à conquista do norte, onde Jardir pretende recrutar um exército para lutar contra os demónios, nem que tenha de o fazer escravizando o povo conquistado. Mas no norte recusam-se a aceitar Jardir, afirmando que já têm o seu próprio Libertador: o Homem Pintado, que em tempos foi amigo e companheiro de Jardir e por quem agora nutre um ódio de morte. 
Só depois de revisitarmos o passado é que finalmente nos é dado a conhecer o presente de Arlen, Leesha e Roger, agora separados por força das circunstâncias. Paralelamente, levanta-se um pouco o véu sobre a perspetiva dos demónios e sobre o perigo letal para a humanidade que poderá verdadeiramente existir no Núcleo.
Acima de tudo, este é um livro de contrastes: a cultura krasiana versus a cultura thesana, a guerra contra os demónios versus a guerra entre os homens, um homem que tudo faz para ser o Libertador e outro a quem todos atribuem esse título mas que não o quer... É um livro de pessoas e de relações entre humanos, nas suas semelhanças e nas suas diferenças. Surgem novas personagens e regressam outras que há muito tempo já não víamos. Percebemos que o autor ainda tem muito para nos contar.
Duas críticas importantes, e que são apontadas por muitos outros leitores: 1.) o facto de mais de metade do livro incidir sobre Jardir, o que nos faz recuar na narrativa, revivendo muitas cenas que já lemos (ainda que numa perspetiva diferente), e quebrando qualquer contacto com as personagens que já conhecemos e que realmente queremos acompanhar. Confesso que até eu, depois de mais de 200 páginas, já deitava Krasia e os krasianos pelos olhos. 2.) o retrato que é feito do universo feminino. Neste livro surgem mais personagens femininas e, aquilo que já se captava um pouco no primeiro livro, é aqui delineado ainda mais: estamos num mundo brutal para as mulheres, onde os homens usam e abusam delas à vontade e elas tentam sobreviver muitas vezes necessitando da proteção de outros homens ou então usando o seu corpo e a sua mente para manipular os homens à sua volta. A virgindade, o sexo, e a violação são temas abordados com frequência, o exercício do poder político por uma mulher é motivo de repulsa pelos homens, a liberdade e a dignidade femininas são muitas vezes postas em causa. Se por um lado compreendo que serve para criar um retrato do mundo onde decorre a história, por outro lado sinto, não poucas vezes, que aquilo só podia ter sido escrito por um homem. Possivelmente é preconceito meu, mas creio que Brett não sabe tirar o melhor partido das suas personagens femininas, não lhes permitindo toda a profundidade que poderiam vir a ter. Fora isso, um livro fantástico, que me deixou água na boca pelos próximos volumes!

Sem comentários:

Enviar um comentário