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segunda-feira, 26 de junho de 2017

O fio

Ele sabia que não era intencional. Apesar de terem passado as últimas semanas a namoriscar incessantemente, apesar de este ser um "encontro oficial" e de ela se ter produzido um bocadinho mais do que de costume, ele sabia no seu íntimo que não era intenção dela provocá-lo. Não daquela maneira. Não de forma a que todo o corpo dele ansiasse por tocar-lhe exatamente naquele ponto mesmo abaixo do pescoço, onde os dedos dela passavam inconscientemente. Agarrando o fio, segurando-o, ajustando-o acima do decote da camisola. Em vão. Nem um minuto depois, bastava que ela abanasse levemente a cabeça, e o fio escorria-lhe pelo peito para se esconder naquele lugar secreto, que ele apenas podia imaginar. E ele, incapaz de tirar os olhos das mãos dela, do fio, do decote...
- Estás a ouvir-me?
- Hã? Sim, claro!
Focou-se nos seus olhos, pequenos, brilhantes e risonhos. No seu sorriso amoroso, meio tímido. Na conversa por  sobre um café e um pastel de nata. Gostava dela, gostava muito dela. Acima de tudo, da sua honestidade, do quão verdadeira e real ela era. Por isso é que ele sabia que não era intencional. Porque ela não era do tipo sedutora nata, porque se atrapalhava de cada vez que acertava o fio, baixava os olhos e os ombros, exalava como num suspiro, como quem quer corrigir uma coisa que, aos olhos dele, era já tão perfeita: o fio caído no decote da sua camisola, escondido no seu peito, tocando-a, roubando-lhe a atenção. A ela e a ele. Que queria de uma vez por todas tirar-lhe aquele fio e tudo o resto e reclamá-la como sua. E ela que nem fazia ideia.
Sorriu-lhe docemente e ele devolveu-lhe o sorriso. Ela levantou a mão mas ele foi mais rápido e, tocando-lhe o pescoço (e o maldito fio), olhou-a intensamente e disse-lhe - És deslumbrante! 
Ela pareceu iluminar-se. Engraçado como, às vezes, os nossos gestos menos conscientes são os que maior efeito provocam nos outros.